Não é todos os dias que uma voz do mundo da música se atreve a dizer, sem rodeios, aquilo que grande parte dos portugueses pensa mas raramente verbaliza. Dulce Pontes fê-lo, com a frase direta: as pessoas estão a dormir, e os políticos transformaram o povo em carneiros.
É uma frase dura, mas difícil de contestar quando se olha para o estado do debate público em Portugal. Vivemos numa espécie de piloto automático coletivo: aceitamos aumentos de impostos como se fossem inevitáveis, engolimos promessas eleitorais recicladas de quatro em quatro anos, e raramente exigimos contas a sério a quem nos governa. Enquanto isso, decisões que afetam diretamente o bolso e a liberdade de cada um continuam a ser tomadas em gabinetes fechados, longe do escrutínio real.
O termo carneiros pode incomodar, mas descreve bem um certo conformismo instalado: baixa participação cívica, desconfiança generalizada mas pouca ação concreta, e uma tendência perigosa para deixar nas mãos de poucos aquilo que deveria ser decidido, discutido e fiscalizado por todos. Esta apatia é, no fundo, o melhor aliado de um Estado que quer continuar a crescer, a gastar e a intrometer-se cada vez mais na vida das pessoas sem grande contestação.
Vozes como a de Dulce Pontes, vindas de fora da bolha política tradicional, têm um mérito especial: lembram que o desconforto com o rumo do país não é exclusivo de comentadores ou analistas, mas um sentimento que atravessa a sociedade portuguesa de lés a lés. Resta saber se, desta vez, o alerta serve para acordar alguém – ou se, como sempre, vamos voltar a adormecer até à próxima eleição.
Vídeo original: https://www.youtube.com/watch?v=ToN5RwLas10