Há afirmações que, por mais boa intenção que tenham por trás, acabam por mostrar o quão desligada anda parte da classe política da realidade concreta das pessoas. É o caso do comentário de Inês Sousa Real a defender que se respeitem os javalis porque também têm sentimentos.
Ninguém discute que o bem-estar animal é um tema legítimo e que deve ter espaço no debate público. O problema é a prioridade e o timing: enquanto se discursa sobre a sensibilidade dos javalis, há agricultores e famílias em zonas rurais a lidar, ano após ano, com prejuízos reais causados por estes mesmos animais – destruição de culturas, acidentes de estrada, invasões de propriedades – sem ver respostas eficazes por parte do Estado.
Este tipo de discurso, vindo de quem devia estar focado em resolver problemas concretos das populações, alimenta a sensação de que uma certa política ambientalista em Portugal está mais preocupada em marcar pontos ideológicos e em cativar determinados nichos eleitorais do que em resolver, com pragmatismo, os desafios reais de quem vive e trabalha no interior do país. Gestão cinegética, apoios a agricultores lesados, planos de contenção populacional de espécies como o javali – são estas as respostas que as comunidades rurais esperam, não declarações que soam bem nas redes sociais mas pouco resolvem no terreno.
No fundo, este episódio resume um problema maior: a distância crescente entre certos discursos políticos, cada vez mais performativos, e as preocupações reais e concretas de quem vive fora dos grandes centros urbanos. Enquanto essa distância não diminuir, este tipo de comentários vai continuar a gerar, com razão, indignação.
Vídeo original: https://www.youtube.com/watch?v=WbRnuhRavIU