Portugal tornou-se uma colónia de férias para quem tem dinheiro, enquanto quem cá vive e trabalha serve sobretudo para pagar impostos. É esta a tese do vídeo de hoje do canal Desgoverno, e é uma sensação que muitos portugueses partilham. Mas os números da habitação contam uma história mais complexa, e talvez mais preocupante.
Os números da habitação em 2025
Segundo o INE, os preços das casas subiram 17,6% em 2025, uma aceleração de 8,5 pontos percentuais face a 2024. As casas usadas valorizaram quase 19%. Foram vendidas 169.812 habitações, num valor total de 41,2 mil milhões de euros. Em apenas um ano, comprar a mesma casa exige muito mais dinheiro. E os salários sobem a um ritmo muito inferior.
Um dado surpreende muitos: os compradores não residentes foram responsáveis por apenas cerca de 5% das transações, com 8.471 casas compradas, menos 13% do que no ano anterior. Ou seja, 95% das casas foram compradas por residentes em Portugal.
Porque é que Portugal parece uma colónia de férias
Se os estrangeiros compram uma pequena parte das casas, porque é que os portugueses se sentem expulsos das suas cidades? Porque o impacto não se mede só em quantidade. Nos centros de Lisboa, do Porto e do Algarve, o alojamento local, o turismo e o investimento de luxo concentram-se exatamente nas zonas onde as famílias sempre viveram. E os regimes fiscais especiais criados ao longo dos anos deram a quem chega de fora condições que o contribuinte português nunca teve.
Mas a causa de fundo é outra: constrói-se pouco. Licenças que demoram anos e impostos pesados sobre a construção e a compra. Rendas congeladas durante décadas destruíram o mercado de arrendamento. E a burocracia afasta quem quer investir. Quando a oferta não acompanha a procura, os preços disparam, venham os compradores de onde vierem.
O que se pode fazer pela habitação
A crise da habitação não se resolve com slogans, mas há um conjunto de medidas que muitos economistas e setores da construção defendem há anos:
- Reduzir impostos na compra e na construção, começando pelo IMT para jovens e famílias na primeira habitação e pelo IVA a 6% na construção nova para habitação própria.
- Acelerar os licenciamentos, com prazos máximos obrigatórios para as câmaras municipais e deferimento tácito quando não são cumpridos.
- Libertar solos públicos e património do Estado devoluto para construção a custos controlados.
- Dar segurança a quem arrenda, com despejos rápidos em caso de incumprimento, para trazer de volta ao mercado as casas que hoje estão fechadas.
Mais oferta, menos impostos e menos burocracia. É uma receita simples, mas que exige coragem para enfrentar interesses instalados e décadas de más políticas.
A nossa opinião
A solução não é fechar o país nem culpar quem nos visita. O turismo é uma das poucas indústrias que tem funcionado. A solução é tratar o português como cidadão de primeira. Baixar o IMT e o IVA na construção, acelerar licenciamentos, libertar solos e garantir segurança jurídica a quem arrenda.
Portugal tem de ser, antes de tudo, um bom país para os portugueses. Um país onde um jovem com um salário médio consegue comprar ou arrendar casa sem ter de emigrar ou viver com os pais até aos 35 anos. Enquanto isso não acontecer, a sensação de colónia de férias para uns e de ATM fiscal para outros vai continuar.
Veja o vídeo completo
Vejam o vídeo completo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=cZd1ew5vt3w
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